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sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Guardião



Quem é o guarda parado na entrada do mundo espiritual
que decide quem deve entrar e quem não deve?
Uma viagem segundo Kafka, Baal Hasulam,
duas parábolas e um portão.

Franz Kafka (1883-1924) é um dos autores que melhor expressa o crescente sentimento de impotência que sentimos em nossa atual existência. O “mundo Kafkiano” é escuro, sombrio e ameaçador. Seus heróis são incapazes e desamparados, perambulando enquanto tentam (e fracassam) superar seus infortúnios.

Uma das estórias mais famosa de Kafka, ”Diante da Lei”, trata-se de um aldeão, o qual se senta em frente ao “Portão da Lei” pedindo permissão para entrar. Ironicamente, o portão está amplamente aberto, no entanto o aldeão está com medo de atravessá-lo sem a permissão do porteiro. Este lhe advertiu que mais adiante encontraria mais guardas, sendo que cada um seria mais forte do que o anterior.

Abatido pelos obstáculos insuperáveis, o aldeão toma uma típica decisão Kafkiana – sentar ao lado do portão e esperar que abra eventualmente. De tempo em tempo, faz tentativas fúteis para persuadir o guarda a deixar-lo passar, tentando animá-lo com argumentos e esquemas engenhosos. Entretanto, os anos passam, o aldeão envelhece
e o portão continua como antes, fechado!

No crepúsculo de sua vida, o aldeão aproveita uma chance e pergunta ao guarda:
- Como pode ser que todos querem entrar pelo portão da lei, mas eu sou o único que pediu permissão para fazê-lo?

“Esta entrada foi feita exclusivamente para você”, respondeu o guarda. ”E agora eu vou fechá-la.”

O Portão Que Oculta as Respostas

O desejo de atravessar o “Portão da Lei” com o objetivo de descobrir o sistema de forças que governam nossas vidas não é algo novo. A Humanidade sempre procurou descobrir as leis ocultas do universo, conseguir controlá-las, e usá-las em seu próprio benefício.

No século XXI, este desejo alcançou novas alturas. Enviamos foguetes ao espaço, andamos na Lua, estabelecemos uma rede de comunicação mundial, e desenvolvemos um incontável número de máquinas e instrumentos. No entanto continuamos na escuridão quando se tratam de nossa natureza espiritual, nossa essência e propósito de vida.

Continuamos sem respostas a nossas mais profundas questões, como: quem rege nossas vidas? Qual è a origem de nossa realidade? Qual é o significado de tudo isso? E assim como o aldeão na estória de Kafka sentimos que somos governados por um conjunto de leis que ninguém nunca decifrou.

Portanto, quem é este porteiro e por que ele se recusa a nos deixar entrar?
Baal HaSulam na introdução de seu trabalho, Talmud Eser Sefirot (O Estudo das Dez Sefirot), faz alusão à essa resposta com uma parábola a qual é reminiscência da estória de Kafka.:

“É como um rei que queria selecionar seus queridos fiéis e trazê-los para seu palácio... Entretanto, designou alguns de seus servos para guardar o portão do palácio e todas as estradas que conduzissem a ele. Ordenou que de forma astuta desviassem todos aqueles que se aproximassem e os distraíssem do caminho...

Claramente, todas as pessoas que começaram a correr em direção ao palácio do rei foram rejeitadas pela diligência dos guardas. Alguns enfrentaram os guardas e chegaram perto da entrada do palácio. Mas os porteiros eram muito atentos, distraíam e rejeitavam qualquer um que se aproximasse com grande êxito, até que se desesperassem e retornassem da mesma forma que tinham vindo.

Assim, vinham e iam, e retomavam as forças e voltavam, e assim adiante por dias e anos, até que se cansaram de continuar.”

Primeiramente, é difícil de entender o que o rei estava fazendo: Queria ele de verdade trazer para o palácio aqueles que o amavam? Suas ações indicam o contrário, se ele realmente queria que entrassem, não teria sido mais simples abrir o portão e deixá-los entrar?

O dilema na parábola se resolve mais adiante quando entendemos que esta é a forma que o rei encontrou de descobrir quem realmente quer alcançar a entrar no seu palácio:

“E somente os corajosos, os quais a paciência prevaleceu e que superaram aqueles guardas e abriram o portão, foram imediatamente privilegiados com a acolhida do rei. E, portanto, a partir deste momento não precisaram mais enfrentar os guardas uma vez que foram presenteados com bons tratos diante da gloriosa presença do rei dentro de seu palácio.

A Chave

O palácio do rei não é nenhum luxuoso esconderijo repleto de jóias e tesouros. De acordo com os cabalistas, é na verdade uma nova percepção da realidade, quando todos os desejos de uma pessoa são governados pela lei espiritual inclusiva – doação total – a qualidade do Criador. Quando descobrimos esta qualidade de doação dentro de nós e a colocamos acima de nossos desejos egoístas descobriremos o que Baal HaSulam alegoricamente chama de “A Luz gloriosa da presença do Rei” – e que nossos desejos são satisfeitos com abundância infinita.

No entanto, mais do que isso perceberemos que esta Lei Oculta sempre nos afetou mesmo quando não tínhamos a consciência de sua existência. E é neste momento que os portões da Lei Espiritual se abrem a nossa frente.

Portanto, quem são aqueles guardas que devemos vencer no caminho ao palácio do Rei? - à qualidade do Criador de doação? Eles são nossos desejos egoístas. Distintamente do que pensamos, não devemos eliminar nossos desejos. Ao invés disso, precisamos apreender como utilizar este desejo básico com o qual já nascemos para o propósito da doação. Devemos adquirir novas intenções - de Amar e Doar – isso irá mudar nossa forma de usar nossos desejos.

O Caminho

Assim como o aldeão na estória de Kafka, às vezes pensamos que se esperarmos ou rezarmos com suficiente empenho o portão se abrirá por si mesmo. No entanto, os cabalistas nos dizem claramente que tudo depende de nós, e que para vencer nossos guardas internos, nos deram um método de mudança e desenvolvimento interno.

Ao contrário do espírito pessimista da estória de Kafka, a estória de Baal Hasulam contém grande esperança para mudança. Os cabalistas que cruzaram “o portão” com sucesso nos contam que no outro lado, a realidade se modifica completamente no oposto da realidade Kafkiana, da realidade no nosso mundo. Naquele lado, se descobre uma realidade eterna e perfeita governada por só uma lei – a lei do amor.

Texto original:The Gatekeeper